POLÊMICAS ESPÍRITAS
Os fariseus, especialmente, os sacerdotes e levitas, na
sua generalidade, buscaram tornar o ministério de Jesus Cristo, na
Terra, quase impossível de ser realizado. Presunçosos e falsamente
doutos, não postergavam ocasião de interrogar o Mestre, tentando
confundi-lO mediante arbitrários sofismas, nos quais desfiguravam os
fatos, a fim de embaraçar-lhe o conteúdo da mensagem. Fingindo
pureza, que estavam longe de possuir, e aparentando fidelidade à Lei
e aos Profetas, que dissimulavam respeitar, agrediam-nO a cada momento e,
quando vencidos pela Sua serenidade e sabedoria, estimulavam a desordem, fomentando
o combate que terminaria pela crucificação, embora não
lograssem vencê-lo.
Mais tarde, os cristãos passaram de perseguidos pelos poderosos terrestres
para a condição infeliz de perseguidores, tornando-se falsamente
detentores da verdade absoluta e juízes cruéis de todos quantos
pensavam diferente deles ou eram suspeitos de tal comportamento...
Na área da Ciência, a mesma atitude predominou em muitas academias
que se acreditavam iluminadas pelo conhecimento supremo, permitindo-se o luxo
de agredir, anatematizar e perseguir aqueles que lhes não seguiam a
cartilha ou que se destacavam sem a sua proteção.
É da natureza humana a presunção de considerar-se cada
criatura credora de todos os privilégios em detrimento das demais.
Aderindo a um ideal, torna-se o único a saber tudo imprimindo a sua
forma de ser, submetendo-o aos caprichos de sua ótica pessoal e atacando
os demais que encorajam a incorporá-lo ao seu cotidiano, porém
livre de submissão e dependência...
Nos tempos heróicos da divulgação do Espiritismo, os
trabalhadores das primeiras horas padeceram a injúria, a perseguição
sistemática, o opróbio de religiosos fanáticos e de inteligências
tidas por brilhantes, que se lhes opuseram, desencadeando covardes campanhas
de desmoralização e crueldade, mediante as quais esperavam deter
o avanço da Doutrina Libertadora.
Certamente, os seus paladinos, convidados ao debate, ao esclarecimento, equipados
de serenidade, raciocínio e conhecimento espírita desarmavam-nos,
sem a usança dos instrumentos indignos da calúnia, das acusações
injustas, objetivando esclarecer e iluminar, ao invés de pensar em
os destruir e os esmagar...
À medida que o Espiritismo adquiriu cidadania e passou a merecer o
respeito daqueles que o antagonizavam, diminuídos os torpes combates
de fora para dentro, surgem novas frentes de batalha, porém, infelizmente,
dentro dos seus arraiais doutrinários. Calúnias adquirem foro
de verdade; acusações vigorosas de deslealdade tornam-se comuns;
denigrem-se pessoas e Instituições honradas através de
golpes fortes de crueldade, infelizmente em nome da pureza do Espiritismo.
Kardec é utilizado nessas lutas, nas acusações e nas
defesas. Interpretam-no com pressa e ampliam-lhe o resultado do raciocínio
pessoal, estabelecento-se critérios de governança do Movimento
e desejando-se submetê-lo ao talante da paixão de cada novo portador
da verdade. Agora que o campo se encontra arado, recebendo as sementes, dividem-se
os trabalhadores, buscando supremacia uns sobre os outros, em lamentável
demonstração de farisaísmo ultramontano e prosápia
antiespírita.
O Espiritismo é doutrina de liberdade, de livre exame, que expõe
sem impor, que ilumina sem humilhar. Não tem chefe, nem condutor, sendo
aberto a todas as criaturas, que o entenderão conforme o próprio
nível de consciência e possibilidade intelectual. Não
condena, nem persegue, ensejando o auto-encontro e a auto-realização
do candidato ao labor nas suas fileiras.
Portador de estrutura científica e filosófica insuperável,
sustenta-se no pensamento de Jesus Cristo, religando a criatura ao seu Criador,
contribuindo eficazmente para a plenitude de ser humano e a sua libertação
das paixões dissolventes.
A dissensão entre os seus adeptos é o único meio de retardar-lhe
a marcha e dificultar-lhe a propagação. É justo que pensem
diferente uns dos outros os seus profitentes, neste ou naquele ponto, que
sejam interpretados de forma variada alguns ensinamentos, mas, que o respeito
ao próximo permaneça, é impositivo doutrinário.
Em todos os campos do pensamento a liberdade deve viger, e o direito a agir
como a cada um apraz, sem que perturbe outrem, é conquista do progresso
e da vida humana.
A melhor maneira de ensinar corretamente o Espiritismo é fazê-lo
de forma digna, vivendo-lhe os postulados morais e permitindo aos demais comportamento
equivalente.
Aqueles que realmente amam o Espiritismo não se tornam geradores de
polêmicas pertubadoras, antes trabalham e exemplificam, fazendo da própria
vida a lição doutrinária que confirma as teorias contidas
na Codificação, que permanece atual e desconhecida, aguardando
saudável e digna divulgação.
Nós, os Espíritos-espíritas, que mourejamos na atividade
doutrinária antes da desencarnação, nos dias difíceis
do passado, desejamos conclamar os companheiros dedicados à permanência
na tranquilidade e no trabalho, sem perderem tempo nas infindáveis
polêmicas e querelas, através das quais os discutidores desejam
exaltar o próprio ego em detrimento da divulgação equilibrada
do pensamento espírita.
Jesus é o Exemplo. Sempre convocado à discussão vazia
e agredido, repondia com lógica ou através de notáveis
silêncios, por saber que eles, os polemizadores desocupados, não
mereciam maior preocupação.
Da mesma forma, Allan Kardec manteve-se sempre ético e estóico
em todas as situações em que era convocado às questiúnculas
inúteis, abordando as questões com elevação e
prosseguindo sem olhar para trás.
Permaneçam, pois, lúcidos e tranquilos, na divulgação
e na vivência do Espiritismo, os servidores fiéis, despreocupados
com o purismo e a pureza de aparência, intimamente vinculados ao bem
e ao dever, certos, de que, num planeta de provas e expiações,
ninguém passa sem padecer incompreensão, dificuldade e dor,
especialmente quando a serviço dos ideais dignificadores da Humanidade.
Viana de Carvalho (Página psicografada
pelo médium Divaldo P. Franco, em 14/07/1993, no Centro Espírita
Caminho da Redenção em Salvador - BA.)